-Escrito por: Victor de Camilo
Esse é o primeiro texto da Newsletter do Justiça Pública e, depois de muito tempo refletindo sobre qual tema abordar, cheguei a uma conclusão: falar sobre o que significa uma política cristã em tempos de pluralismo.
Apesar da minha forte inclinação em escrever um texto chato, maçante e técnico (afinal são esses os textos que leio), essa é uma tentativa de tratar um tema fundamental para nós e que lança bases do nosso trabalho1. Espero fazer isso de forma internética (para usar um termo do meu amigo Danilo), ou seja, em alinhamento com os ditames das novas mídias.
Bom, para começar precisamos falar do elefante na sala. O que é, afinal de contas, “pluralismo”? Gosto de pensar nesse conceito menos como um exercício teórico complexo e filosófico, mas mais como um fato empírico experimentado por todos nós como diria Peter Berger.2 Assim, trata-se de uma “situação social na qual pessoas de diferentes etnias, cosmovisões e moralidades vivem juntas pacificamente e interagem amigavelmente”3.
Por isso, Berger critica a noção de que vivemos numa “era secular”, pois ao invés da erosão de crenças religiosas, vemos uma situação de convivência de vários tipos distintos de crença. Por isso, ele prefere o termo “era pluralista”.4
Ora, podemos pegar como exemplo nossa situação no Brasil e sua vasta pluralidade, seja regional, religiosa, cultural etc. Por exemplo, Felipe Nunes nos apresenta em sua pesquisa “Brasil no Espelho” uma estruturação de 9 bolhas ideológicas brasileiras (que podem se cruzar muitas vezes). Elas são:
Conservadores cristãos (maior segmento, 27%)
Militantes de esquerda (mais tradicionais, com forte vinculação partidária, sindicalistas)
Dependentes do Estado (beneficiários de programas sociais, como Bolsa Família)
Agro (como modo de vida, grupo tradicionalista, apoiador de políticas armamentistas e forte no Congresso)
Progressistas (aqui entram os signatários de políticas identitárias)
Empresários
Liberais Sociais (fortemente democráticos e anti-polarizadores; grupo bem minoritário, conheço 2: Pedro Doria e nossa amiga Deborah Bizarria)
Empreendedores Individuais (atuam sem vínculo trabalhista e benefícios celetistas)
Extrema Direita
Com certeza ao ler esses grupos você pensou em pessoas concretas que poderiam exemplificar cada um. É uma experiência vívida. Agora, o problema é que isso apresenta um desafio para qualquer tentativa de fazer políticas “públicas”, ou de projeto para o bem comum, por causa da dificuldade de definir qual é esse “público”. Ou, para complicar mais, pela dificuldade em estabelecer diálogos numa sociedade pluralista E radicalmente polarizada.
Em qualquer comunidade política democrática, existe esse desafio de justificar as perspectivas para pessoas/comunidades que partem de pressupostos completamente distintos. Como James Smith aponta, isso é realmente muito complexo:
“Em sociedades democráticas, a lei ou política respaldada pela força deve ser justificada ou legitimada. Em suma, o Estado deve ser capaz de fornecer algum tipo de argumento que defenda a legitimidade da lei. Mas, como sugeri, a legitimação só pode acontecer dentro de um paradigma ou de um jogo de linguagem. Os argumentos necessariamente apelarão a uma lógica entre uma pluralidade de lógicas. A lei, entretanto, exige um tipo de justificativa que funcione através de paradigmas e, portanto, que funcione para todos. Mas onde buscaríamos tais critérios de trans-paradigma ou inter-paradigma? Poderíamos ter critérios que não estejam ligados a uma lógica particular, contextual e histórica, funcionando dentro de um jogo de linguagem? E, em caso negativo, como a lei ou a política podem ser legitimadas em um Estado pluralista? Pode haver uma política sem diferenças, ou seja, sem indivíduos de fora vítimas? Como podemos decidir entre interpretações opostas e conflitantes de justiça?”5
Sem saber onde encontrar tais critérios, a política vira uma zona de guerra de todos contra todos. Cada grupo buscando impor sua visão, mobilizando as novas mídias e discursos afetivos para angariar mais adeptos, escalando a violência e buscando seus próprios interesses. No final do dia, é a lógica do “que vença o mais forte”.
Porém, ainda acreditamos aqui no Justiça Pública que é possível, na verdade é necessário, empreendermos esforços comunitários6 para estabelecer pontes, buscar afirmar esses critérios de maneira dialógica e, ao mesmo tempo, convicta dos nossos princípios, sem com isso buscar impor nossa visão de sociedade.
Num país crescentemente cristão (especialmente evangélico), precisamos de fundamentos para compreender o que é uma política cristã e como ela se relaciona com o fato do pluralismo. É uma pergunta sobre os critérios próprios de uma política cristã e como ela serve a todos, não apenas crentes.
Poderia já antecipar uma resposta. Em meio ao pluralismo cosmovisional, isso não significa impor um critério vencedor, mas forjar, dialogicamente, enquanto rede, e sempre em contexto, uma tarefa compartilhada de discernimento das normas que conduzem nossa vida pública, comum.
Uma postura cristã que reconhece o fato do pluralismo não abre mão dos seus valores como em uma postura subserviente aos valores de mercado ou outros para que haja diálogo. Esse é o problema das mentes cristãs secularizadas e naturalizadas, incapazes de pensar de uma maneira cristã.
Temos que ser tolerantes, prontos para dialogar e traduzir nossas convicções (para que elas possam fazer sentido àqueles que não compartilham dos nossos pressupostos), servirmos às pessoas que não tem os mesmos credos que nós, mas nunca podemos ser subservientes e negar princípios ou abrir concessões em nome de “um lugar à mesa”.
Contudo, tal luta não é apenas quanto aos aspectos teóricos das preocupações arquitetônicas sobre princípios e procedimentos, mas o desafio é justamente forjar uma vida em comum em meio à diversidade direcional, que requer não apenas andaimes teóricos, mas, acima disso, disposições, hábitos, virtudes, normas, ou para resumir a Lei: de amor. Amar a Deus acima de todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos.
Conclusão
Sei que ainda existem gaps na minha argumentação. Além dessa questão de postura, existe uma discussão paralela sobre a possibilidade de uma política cristã de fato e não só no comportamento. Numa era pluralista e polarizada, é extremamente difícil falar do que seria uma política cristã substancial, com conteúdo que arrogue verdades sobre a sociedade e sua organização. Por isso, esse é apenas o primeiro texto de uma série de textos em que discutiremos a possibilidade de uma política cristã numa era pluralista e seus significados.
Para antecipar, teremos mais um texto repensando o papel da religião cristã na esfera pública, tratando, mais brevemente, sobre sua principal contribuição, o mito da neutralidade na política e a ideia de tolerância. Em seguida, abordarei a possibilidade (e necessidade) de uma política cristã democrática. E, finalmente, uma tentativa de responder à pergunta: Justiça Pública pra quem? O caminho concreto de uma política cristã.
Aos filosofentos e intelectuais curiosos de plantão, vou buscar colocar mais detalhes nas notas de rodapé. Então, divirta-se.
“Os múltiplos altares da modernidade: rumo a um paradigma da religião numa época pluralista”. Editora Vozes, página 19.
“Os múltiplos altares da modernidade: rumo a um paradigma da religião numa época pluralista”. Editora Vozes, página 20.
“Os múltiplos altares da modernidade: rumo a um paradigma da religião numa época pluralista”. Editora Vozes, página 147.
James Smith. “A queda da interpretação: fundamentos filosóficos para uma hermenêutica criacional”. Página 245. Smith argumenta que no exercício político de forjar uma vida comum, isso significa estar atento às necessidades concretas dos membros e comunidades de uma comunidade política e buscar endereçá-los num exercício de diálogo entre tradições. Existem critérios, que ele vai argumentar serem estabelecidos na criação de Deus, que orientam essa vida em comum, assim como todo esforço interpretativo.
Esse é um ponto de suma importância, pois não se trata de mais um projeto personalista focado em atuações individuais que podem cessar a depender de sua vontade. O Brasil já está cheio de “heróis”, precisamos de mais comunidades que busquem endereçar problemas públicos enquanto instituições organizadas. É uma resposta a outros problemas da nossa formação histórica que carregamos em nosso DNA: o trabalho de construir uma política cristã brasileira que vise o bem de todos é um trabalho comunitário, de uma rede de cristãos engajados, comprometidos com Cristo, e orientados ao bem comum. Mas, isso é tópico para outro texto.





Excelente!